| A DIMENSÃO SOCIOESPACIAL DO CIBERESPAÇO: UMA NOTA |
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Carlos
Alberto
F. da Silva A DIMENSÃO SOCIOESPACIAL DO CIBERESPAÇO: UMA NOTA
Resumo
1)
Introdução Nas
três últimas décadas, a Geografia tem sido marcada por uma forma peculiar de
operacionalizar a complexidade da sociedade. Da prática humana emergiu o modo
materialista de analisar o objeto de estudo do geógrafo. A influência marxista
acredita ser necessário pensar as relações sociais em termos de suas conexões
com o tempo e o espaço. A
concepção materialista e dialética concebe o tempo e espaço como formas
peculiares da existência da matéria em movimento. Desse modo, a materialidade
social só existe no tempo e no espaço. A matéria em movimento é a base de
tudo que existe no mundo. Ela é também a realidade objetiva, existindo fora de
nossa consciência e nela se reflete. Há uma impossibilidade da existência do
tempo sem o espaço. Os dois estão ligados aos aspectos de sua coexistência e
mutação. A
desenfreada aceleração tecnológica deste final de século tem procurado
alterar essa concepção materialista do espaço, a partir de uma “queima do
espaço e da experiência de um tempo em intensificação”. É o que Harvey
(1993) chama de compressão espaço-temporal. A velocidade dos media
eletrônicos instaura uma nova forma de experienciar o tempo, substituindo a
noção de tempo-duração por tempo-velocidade e a instantaneidade das relações
sociais. O tempo advindo das novas tecnologias eletrônico-comunicacionais é
marcado pela presentificação, ou seja, pela interatividade on-line,
fato constatado nas tecnologias de telepresença em tempo real que alteram nosso
sentido cultural de tempo e espaço. Na
verdade, há toda uma falácia de que o espaço geográfico, enquanto expressão
material das práticas sociais no seu contínuo movimento de transformação,
perde importância diante da revolução da telemática. Alguns autores sugerem
o fim da geografia, afirmando que se toda prática social é acompanhada por uma
grafia deixada no espaço, o domínio das relações sociais via imagens em
tempo real tende a abolir o espaço. Entretanto, a concepção materialista da
sociedade sugere a impossibilidade de existência do tempo sem o espaço e a matéria
em movimento. Acreditamos que qualquer alteração nos sistemas de interação
social será sempre precedida por uma materialidade espaço-temporal
representativa de um movimento de mutação e permanência de uma forma específica
de sociabilidade. É
neste sentido que entendemos o ciberespaço. Para nós, o ciberespaço é uma
dimensão da sociedade em rede, onde os fluxos definem novas formas de relações
sociais. Ao contrário do censo comum em torno do aniquilamento do espaço pelo
tempo, parece-nos que, tal como afirma Castells (1999, p.490), é o espaço
material que organiza o tempo, “estruturando a temporalidade em lógicas
diferentes e até contraditórias de acordo com a dinâmica socioespacial”.
Entretanto, se o espaço material organiza o tempo, a emergência de um
tempo-real das redes comunicacionais colabora para uma sensação de
aniquilamento do espaço pelo tempo, na forma de um espaço virtual. De um modo
geral, podemos dizer que o
tempo-real também implica a organização de novas relações sociais que se
expressam na formação de um espaço virtual e na reestruturação do espaço
concreto preexistente, provocando intenso processo de inclusão e exclusão de
lugares e pessoas na rede. Neste
estudo, o ciberespaço será analisado enquanto um conjunto de diversas redes
comunicacionais informatizadas, tais como a Internet, Kidsphre, Zamir etc. O
espaço de fluxos de imagem, som, informação e de socialidade definido pelo
ciberespaço expressa uma “organização material das práticas sociais de
tempo compartilhado que funciona por meio de fluxos” (Castells, p.436). Cabe
apenas lembrar que tais redes não estão somente no espaço de fluxos. De
acordo com Levy (1993, p.26), elas constituem o próprio espaço.
Se o ciberespaço é parte integrante da sociedade contemporânea, logo
é uma realidade que a Geografia deve buscar compreender, enquanto uma nova
forma de materialização dos avanços da sociedade capitalista. Neste sentido,
o artigo em tela procura dar uma contribuição acadêmica, ao responder a
seguinte questão: Qual é a
geograficidade do ciberespaço, visto que o espaço geográfico é normalmente
entendido como uma forma territorial de organização material da sociedade?
Para tanto, a análise estará assentada nas discussões teóricas sobre a
cidade real e cidade eletrônica enquanto expressão de uma nova totalidade
social imposta pelas tecnologias comunicacionais. No final, buscaremos elucidar
alguns aspectos do ordenamento implícito nas cidades eletrônicas como extensão
virtual da cidade concreta e real. Enfim, não pretendemos alcançar uma
resposta conclusiva sobre o tema, e sim possibilitar a abertura de um canal de
discussão sobre a temática proposta. 2)
A Geograficidade do Ciberespaço Giddens
(1994) ao analisar as conseqüências da modernidade, no final do século XX,
apresenta um conceito importante para nossa análise. Para ele, os avanços
tecnológicos da sociedade moderna têm permitido um distanciamento progressivo
dos indivíduos de suas referências de tempo e espaço, chamado de “desencaixe”.
Hoje em dia, na rede telemática, o
tempo tem se esvaziado e perdido, cada vez mais, relação com a experiência prática
da vida dos homens num determinado lugar. O espaço concreto cria seu oposto, o
espaço virtual, e novas formas de contatos interpessoais. Baseado nestas concepções
de tempo e espaço, o desencaixe
seria o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e
sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço. Daí
emerge o que denominamos de ciberespaço, isto é, um dos processos contemporâneos
de desencaixe, promovido pela telemática. Quando
se fala em ciberespaço é comum pensar em algo que não nos é palpável,
imaterial, um lugar distante de nossa realidade, onde relações sociais,
culturais, econômicas ao se estabelecerem se fazem no imaginário, “algo de
outro mundo”, um ambiente futurístico, um divertido desenho animado dos
Jetsons. Essa é uma visão idealista do tempo e do espaço. Algumas tentativas
de explicar o ciberespaço esbarram numa postura idealista, com todos os seus
matizes, ou seja, procuram negar a realidade objetiva do espaço como forma de
existência da matéria. Um
dos principais filósofos idealistas, partidário de uma concepção subjetiva
do espaço e do tempo foi Emanuel Kant. Para ele, tempo e espaço eram duas
formas de representação sensitiva, ou seja, uma forma de contemplação dos
sentidos. No entanto, o ciberespaço não é somente uma sucessão de imagens e
sensações experienciadas pelo indivíduo que teleinterage com a máquina, a
fim de manter contatos com um “mundo mágico”, é também uma nova expressão
material dos avanços da sociedade contemporânea. Mas
que mundo é este que muda a nossa noção de tempo e espaço? Willian
Gibson (1991), em seu livro “Neuromancer”, foi o primeiro autor a utilizar o
termo para designar este ambiente artificial, onde dados e relações sociais
trafegam (ou navegam?) indiscriminadamente. Para ele, o conceito de ciberespaço
é o de um espaço não físico ou territorial no qual uma alucinação
consensual pode ser experimentada diariamente pelos usuários. O ciberespaço é
a “MATRIX”, uma região abstrata invisível que permite a circulação de
informações na forma de imagens, sons, textos etc. Este espaço virtual está
em vias de globalização planetária e já constitui um espaço social de
trocas simbólicas entre pessoas dos mais diversos locais do planeta. Cabe
lembrar que a dinâmica imaterial do ciberespaço é apoiada no avanço das forças
produtivas do sistema capitalista, na sua busca incessante de aumentar a
velocidade de rotação do capital e das transações mercantis e financeiras em
escala planetária e é também resultante das tecnologias voltadas para a
Guerra, como a Internet. Para tanto, todo um investimento em tecnologia de
informação se apresenta. As grafias deixadas pelas técnicas no atual estágio
de produção social do espaço se expressam nos sistemas de satélites, cabos
de fibra ótica, teleportos, rede de computadores com inovações constantes em
softwares, hardwares etc. Atualmente,
o ciberespaço pode ser compreendido a partir de duas perspectivas: 1) como via
expressa de informação através da conexão de computadores em rede e 2) como
realidade virtual”. Para
que se possa ter acesso à via expressa de informação, é necessário que
sejam estabelecidas as “condições ambientais” do ciberespaço. O ambiente
construído é a expressão material que permite conexão com um novo sistema de
relações sociais. Tais condições só nos é possível a partir de um arranjo
espacial que inclui o computador, monitor, teclado, mouse, linha telefônica,
provedor de acesso, redes telemáticas e outros meios eletrônicos capazes de
nos conectar com o ciberespaço. Estas formas estáticas, aos quais estamos
fisicamente ligados, nos transportam, através da virtualidade, para um mundo
onde prevalecem as nossas sensações. A experiência de tempo e espaço não
existe “nas coisas visíveis do ciberespaço”, mas sim aparecem somente na
zona do subjetivo. Desse modo, o ciberespaço é uma veleidade, no sentido de
abrir alguma possibilidade de enfoque idealista da materialidade social da
sociedade moderna. Para
que possamos prosseguir se faz necessário esclarecer o que entendemos por
“realidade virtual”. Trata-se, claramente de uma revolução. Uma alteração
radical na forma de conceber o tempo e o espaço, e mesmo os relacionamentos.
Segundo Pierre Levy (1996, p.16),” o virtual não se opõe ao real e sua
efetivação material, mas sim ao atual”. Filosoficamente, o virtual é
entendido como o que existe em potência e não em ato. O virtual é extensão
do real, ou seja, é um real latente. As imagens virtuais fazem mediação da
realidade. O tempo instantâneo e espaço virtual são os novos vetores que se
inserem e se articulam ao ambiente construído pela sociedade em rede telemática. O
ciberespaço é, então, um ambiente que permite inúmeras possibilidades do
mundo real. O mundo virtual caracteriza-se não propriamente pela representação,
mas pela simulação. Esta simulação é ,na verdade, apenas uma das
possibilidades do exercício do real. Desse modo, podemos afirmar que o
ciberespaço não está desconectado da realidade. No
ciberespaço o espaço de fluxos realiza um processo de desmaterialização das
relações sociais conectadas em rede. O que antes era concreto, palpável e
material adquire uma dimensão imaterial na forma de impulsos eletrônicos. Ao
mergulhar no ambiente do ciberespaço, o usuário experimenta uma sensação de
“abolição do espaço” e circula em um território transnacional,
desterritorializado, no qual as referências de lugar e caminhos que ele
percorre para se deslocar de qualquer ponto a outro modificam-se
substancialmente. Na
rede do ciberespaço surgem pontos de fixação de relações sociais acessados
por uma chave eletrônica. Quando enviamos uma correspondência por e-mail,
ou visitamos um determinado site
ou link, desconhecemos o caminho ou
rota pelo qual se realiza o encontro. A guisa de exemplificação, podemos dizer
que ao enviar um e-mail do Rio de
Janeiro para Niterói, não sabemos qual é a infovia
percorrida. Não podemos descrever a paisagem pela qual a comunicação
percorre. Os provedores de acesso são
inúmeros, podemos até imaginar que para sair do Rio de Janeiro e chegar a
Niterói o percurso possa ser via São Paulo.
Logo, as referências de lugar desaparecem. Estamos,
então, diante do debate entre lugar e “não-lugar” (Marcondes Filho: 1996,
p.146-7). O lugar normalmente é associado a uma materialidade definida por relações
simbólicas, míticas, identitárias e históricas do grupo social que ali
reside. O não-lugar, por sua vez, seria marcado por uma relação com o espaço
sem tais pressupostos (Augé:1994, p.73-77). Como exemplo de não-lugar, Augé
inclui os lugares de passagens, de não fixação e da ausência de identidade
sentida pelas pessoas que os freqüentam, tais como os aeroportos,
shopping-centers, auto-estradas etc[3].
No ciberespaço, o não-lugar é caracterizado como passagem e momento de fixação
de uma consciência individual e solitária assentada em relações identitárias
que o usuário da rede constrói, em sua memória, diante da tela do computador
e dos movimentos de imagens aí registrados. Esse lugar, que propomos chamar de
“lugar virtual”, diverge da definição de Augé, pois na rede é possível
uma relação de convivência de pessoas, produzindo identidades expressas nas
tribos eletrônicas. Temos, portanto, um novo referencial do espaço vivido
enquanto produto das relações humanas mediatizadas pela revolução telemática,
impondo novas formas de pertencimento destituída da materialidade dos lugares,
tal qual até então concebemos. Ou seja, na rede o indivíduo pode pertencer a
um lugar que não existe, já que este se apresenta como simulacro.
Embora
possa ser esvaziado de afetividade e sem história, esse “lugar” dá sentido
a um tipo de relação social através de uma localização virtual cujo acesso
é via chave eletrônica, ou seja, de um endereço (www, @, FTP, ICQ, etc) que
identifique o domínio de onde o usuário está inserido. De acordo com Cardoso
(1997), tal conexão difere do uso de um telefone ou fax, visto que na localização
virtual as locações são materialmente indeterminadas. As
características do “lugar virtual” residem na territorialidade,
imaterialidade, tempo-real e interatividade. Tais aspectos possibilitam relações
sociais simultâneas e acesso imediato a qualquer parte do mundo, inaugurando
uma nova percepção do tempo e das relações sociais. É
no anonimato do “lugar virtual” que se experimenta solitariamente uma nova
sociabilidade. O viajante pode caminhar por diversas infovias até encontrar o
grupo ou tribo que mais se assemelha, ou informações. Ao encontrar sua tribo,
o indivíduo fixa-se neste endereço eletrônico e passa a experienciar e
compartilhar de um lugar simbólico e marcado por relações de pertencimento de
caráter ideológico, afetivo, sexual ou racial. Por
que o ciberespaço tem atraído tanto info-sociedade, ou seja, os grupos de
pessoas conectadas em redes de comunicação via telemática? Acreditamos que as
comunidades virtuais estão atreladas a uma nova efervescência social construída
a partir do anonimato. No ciberespaço, as pessoas são capazes de interagir sem,
no entanto, necessitar divulgar sua identidade. É possível adquirir múltiplas
faces, utilizar diferentes máscaras, e revelar os seus desejos mais íntimos.
Ser o que gostaria de ser no “mundo
real” e o que não é devido às
leis sociais. Logo,
o ciberespaço possibilita a emergência de uma socialidade que se contrapõe a
uma sociabilidade do mundo real. Para Michel Maffesoli (1984), a socialidade é
um conjunto de práticas quotidianas que escapam ao controle social rígido e,
ao mesmo tempo, um verdadeiro substrato de toda vida em sociedade. De acordo com
Lemos (1998, p.2), a socialidade do ciberepaço é uma forma de contracultura.
Diversas tribos eletrônicas buscam uma maneira não convencional de ser ou
pertencer a um imaginário coletivo no qual as pessoas compartilham suas
ideologias, fantasias e anarquias. Este imaginário coletivo pode tomar
diferentes formas e criar grandes movimentos de massa com uma força capaz de
definir revoluções políticas e econômicas a ponto de interferir diretamente
na realidade de um espaço concreto, real. Como exemplo, podemos citar os grupos
de hackers que atacam sistemas de
defesa e financeiros e a formação de grupos de solidariedade que buscam
interferir em diversos momentos da vida política e econômica de um país em
escala global, bem como defender apoio às diversas territorialidades como as
dos seringueiros e índios da Amazônia brasileira. A sociabilidade, por sua vez,
caracteriza-se por relações institucionalizadas e formais de uma sociedade,
isto é, uma maneira convencional de “estar em sociedade”, de pertencer a
uma determinada sociedade (Maffesoli, 1984). A comunicação entre os
integrantes de um grupo de pessoas reside na utilização de um conjunto de
simbologias pré-determinadas. As relações de sociabilidade, às vezes,
retrata um “ser” artificial, estereotipado enquanto a socialidade retrata o
ser como ele é. A
socialidade eletrônica incide diretamente na pós-modernidade, provocando uma
transformação do caráter social em função dos novos tempos e uma nova
agregação social. É nela que os valores tribais se socializam e crescem para
o conjunto do corpo social; é uma identificação e união das “consciências
iguais”, criando uma solidariedade e cumplicidade. A tribo envolve um caráter
ativista, de uma sociabilidade perdida. Muitas das tribos existentes no
ciberespaço são grupos de minorias no mundo real, que devido à exclusão
social, se sentem renegados a uma falsa identidade na sociedade formal. O
isolamento do mundo real via Internet encontra compensação e reforços nas
infinitas possibilidades de trocas e de interações em diferentes níveis nas
comunidades virtuais. Não se pode dizer que o computador isola o indivíduo,
muito pelo contrário ele permite toda essa inserção no mundo virtual. Desse
modo, muitas tribos têm sido criadas, algumas bem conhecidas como os Pherakes (piratas
do telefone), os Hackers (a elite da informática), os crackers (Cyberpunks –
a versão negra dos Hackers), os Ravers e Zippies (herdeiros da contra-cultura
dos anos 70), estes últimos particularmente interessantes porque utilizam o que
os seus primos hippies deixaram de lado como inimigo: a tecnologia. Os
ciber-rebeldes expressam todo o seu cotidiano utilizando formas de descarregar
um vitalismo, para melhor ou para pior, e, ultimamente, há tribos que
disseminam pedofilia, neo-nazismo, anarquismos, homossexualismo, terrorismo, tráfego
de drogas, ONGs, ajuda comunitária etc. A
socialidade eletrônica simula a via do real e caracteriza-se pela inexistência
do face-a-face, permitindo mais fôlego para que a sociedade possa investir na
sua individualidade. A sua existência deixa marcas no nosso cotidiano e no
local onde vivemos. Os usuários da rede estão modificando os seus hábitos
pessoais e a forma de interação com a cidade onde mora. Segundo Virilio
(1993), a velocidade na rede é igual ao divórcio social e a tendência na
cidade real é dessocializar, provocando uma diminuição do universo
socializante real. Fica claro então que na rede a sociabilidade se transfere,
se desenraíza do solo para virar uma socialidade eletrônica que não utiliza
diretamente o espaço concreto. O social que sempre foi vinculado a um território,
a um espaço onde as pessoas se localizam, pode passar a um campo abstrato (não-lugar,
chave eletrônica) mas que se reveste de uma forma concreta na vida das pessoas. É
neste espaço que encontramos pluralidade e complexidade. É visível que os
ideais da modernidade estão dando vazão a valores alternativos. Além do
anonimato, busca-se no ciberespaço um grande desejo de não estar só. Esta
possibilidade real do ciberespaço também está associada, além de muitos
outros fatores, ao medo da violência urbana, à possibilidade de encurtamento
das distâncias, ao poder “estar” em diversos “locais” ao mesmo tempo,
desafiando qualquer lei da física conhecida por nós até hoje. É
importante também mencionar que no cotidiano de uma cidade, as pessoas não têm
tanta disponibilidade de se dedicar a uma conversa de alguns minutos face a
face. É cada vez menos possível dispor de tempo para investir em
relacionamento futuro. No ciberespaço acontece o contrário. Quando entramos
num bate-papo na rede dedicamos integralmente o nosso tempo frente a tela do
computador e aos nossos relacionamentos virtuais, às nossas tribos. De
acordo com Levy (1996), o ciberespaço
é um meio onde será possível se consolidar a tecnodemocracia, ou seja, uma
nova formação política onde a tecnologia da eletrônica tornará viável o
desenvolvimento de comunidades inteligentes capazes de se autogerir. A autogestão
estará ligada aos grupos que se formariam através das preferências
individuais, dando origem a territórios imaterializados. O grande perigo é que,
atualmente, existe um pequeno grupo de pessoas privilegiadas que detém a
“senha de acesso” à tecnologia de informação. Logo, o ciberespaço faz
surgir sociedades marginalizadas, os info-excluídos. A era tecnológica cria ou
recria uma nova divisão social, uma redistribuição de saberes, poderes, dois
mundos que se separam de acordo com a participação ou não na telemática. 3)
O ordenamento das telecidades no ciberespaço A
análise da sociedade moderna até aqui desenvolvida sugere que estamos diante
de um nova forma de produção social do espaço. Curioso é que a concepção
materialista da geograficidade, deste final de século, apresenta um sistema de
relações sociais, expressas no ciberespaço, no qual o tempo real-instantâneo
é um tempo sem tempo e a nova cotidianidade é destituída de espaço e matéria.
A imagem-fluxo, a presentificação, a realidade virtual e as diversas
possibilidades de comunicação on-line sugerem um novo ambiente, que alguns
chamam de cidade eletrônica ou cidade digital, derivada das redes
comunicacionais e informáticas. Tais
redes são o suporte estrutural para a duplicação da cidade real nas redes, a
que Virilio (1993) chamou de telecidades. A cidade eletrônica é resultado de
um conjunto de máquinas que interagem simultaneamente via rede de informática
(internet, por exemplo), provocando um esvaziamento do espaço urbano e um
investimento no tempo. Mas é, antes de tudo, não um lugar, e sim um processo
caracterizado pelo predomínio do espaço de fluxos (Castells, 1999, p.423).
Apesar de a economia e das relações sociais se processarem, majoritariamente,
nas cidades reais (a produção, as trocas e a cultura de massa), cada vez mais,
temos a expansão de uma “cidade eletrônica” colocada pelas redes. Isso
porque a telecidade incrementa a materialidade da economia capitalista via redes
e sistemas interativos diversos. Logo, as redes e as telecidades possibilitam, não
só uma desterritorialização da sociabilidade, mas também uma desmaterialização
de processos capitalistas de produção, circulação e consumo. A
estrutura organizacional desta cidade lembra um rizoma, ou seja, uma
multiplicidade de conexões sem sujeito e objeto. Os rizomas se ramificam e se
reticulam, num intenso processo de desterritorialização e reterritorialização
das relações sociais (Guattari e Deleuze, 1982). Isso porque, a cidade digital
é um corredor de movimentação de informações e imagens que demanda
organizar zonas de fixação. De acordo com Levy (1996, p.152), “o
deslocamento não elimina a fixação: ele a setoriza, codifica, tornando-a
dispersa, internamente fragmentada”. A concepção desta cidade formada por
rede de fluxos possibilita vislumbrar um ordenamento da imaterialidade das relações
sociais. A análise desta cidade implica uma concepção de espaço deslocada do
movimento de matérias (átomos) e do tempo-duração. De
acordo com Silva (1998), a materialização da cidade digital é um simulacro, não
é cópia de nada. Ele afirma que a cidade eletrônica é um “simulacro do
espaço, mas é espaço”. Entendemos que esta definição só pode ser
compreendida a partir de uma concepção materialista das transformações
estruturais por que passa a sociedade, em face do paradigma da velocidade, da
supressão do espaço-tempo e da interatividade absoluta entre as pessoas através
das infovias. O simulacro da cidade digital só pode ser espaço, no sentido de
estar calcado numa realidade objetiva e material. O que ocorre no ciberespaço
é apenas uma potencialização das relações sociais na forma de um simulacro
de cidade. No entanto, para se vivenciar uma realidade virtual deslocada da
geografia é necessário um espaço material e mutável. A realidade virtual que
se apresenta no ciberespaço não é somente fruto de contemplação sensorial
das imagens e troca de informações, mas antes de tudo, uma forma objetiva de
ser da nova materialidade do arranjo social em redes comunicacionais. Enfim,
os avanços nas forças produtivas sob a égide do capitalismo sugerem maiores
investimentos na velocidade como vetor de uma nova cultura e a implantação de
um ciberespaço, ou cidade eletrônica, onde a geografia, ou seja, os grafias
deixadas pelas relações sociais desaparecem, pois não são mais materiais,
articulando-se e dinamizando-se em redes rizomáticas. Por outro lado, os
investimentos no tempo (teleporto, cabos de fibra ótica, satélites, etc) têm
sido acompanhados por desinvestimento do Estado na dimensão do espaço físico-social
da cidade (melhorias nos sistemas de transporte, hospitais, escolas, etc). Paul
Virilio (1993) afirma que à medida que as tecnologias de comunicação estão
cada vez mais velozes e ligadas ao tempo real, destroem-se as geograficas,
obliterando-se os territórios através de uma transferência do espaço real
das cidades e dos territórios para as imagens, ou seja, para a tela dos
computadores. Apesar
das considerações de Virilio, enfatizamos que mesmo sem ser um espaço
material, a cidade eletrônica é parte integrante da concepção materialista
da sociedade contemporânea conectada nas infovias.
Entender o domínio das técnicas de criação de novos sistemas de relações
sociais, e desses novos espaços, é abrir um verdadeiro leque das aplicações
possíveis para a Geografia, já que o fim da geografia é uma veleidade. 4-
Para não concluir A
dinâmica da cidade eletrônica implica um ordenamento complexo, interativo,
instável e auto-organizante que conta com a desordem expressa no acesso à rede
e às diversas socialidades que ali se apresentam. A estrutura dessa cidade é
rizomática (Guattari e Deleuze, 1982), isto é, ramificada e reticulada
permitindo estratificações e territórios das tribos dos zipppies (neo-hippies
cibernautas), hackers, cyberpunks, tecno-anarquistas, neonazistas, pedófilos e
de muitos outros grupos. Entretanto, tal arranjo cria linhas de fuga e de
desterritorialização sucessivas de diversas tribos na rede. Desse modo, ordem
e desordem são parte integrante dos processos de territorialização,
desterritorialização e reterritorialização, já que a existência da cidade
eletrônica não implica um controle centralizado, e sim uma desordem expressa
em múltiplas conexões heterárquicas. A
socialidade da telecidade se contrapõe a sociabilidade real, inaugurando uma
socialidade eletrônica, conforme já explicamos anteriormente. A cultura das
redes aí instalada não tem vinculação com qualquer tipo de regionalidade, já
que é uma cultura do imediato, sem referências nacionais específicas. Na
verdade, poderíamos também nos referir às redes comunicacionais
informatizadas como cultura. Há uma cultura se firmando fora dos espaços
materiais através das telecidades cuja “estrada principal” é via satélite
e cabo de fibra ótica. Apesar da dificuldade de caracterizar essa socialidade
eletrônica, é notório que estamos diante de um outro tipo de produção
cultural, no qual a referência identitária a um lugar desaparece. É necessário,
portanto, uma renovação conceitual sobre a definição de um território a
partir dos limites reais da identidade cultural de um grupo social. Na rede não
há fronteiras para as territorialidades expressas pelas tribos eletrônicas. Na
rede, diversos grupos de pessoas se identificam e passam a ter uma relação
afetiva com um espaço virtual que não deixa de ser uma forma de territorialização.
A idéia do territorialismo associado ao enraizamento às fronteiras físicas e
ao controle político desaparece. A chave eletrônica dá acesso à rede e a
novos territórios culturais imaterializados que se colocam no limiar do próximo
século. Essa
nova cultura em rede ou vice-versa instala uma forma de ver o real, na qual a
segregação emerge da seleção de diversos tipos de relações societárias
que desejamos vivenciar. Na verdade, o ordenamento das cidades eletrônica
implica a sua partilha por diversas tribos que se juntam por laços de
afetividade cultural, sexual, racial etc. Nesse sentido, mais uma vez, podemos
observar o virtual como extensão do real. Um
outro aspecto importante da cidade eletrônica é a ausência de mobilidade das
pessoas e dos serviços, de modo a evitar as barreiras físicas impostas pela
cidade real. Através do correio eletrônico podemos enviar uma carta sem uso do
correio tradicional. Não precisamos mais ir ao banco para realizar uma série
de serviços. A cidade do ciberespaço nos permite evitar o tráfego, a violência
urbana, a fila dos bancos, a demora da entrega das cartas. A
revolução tecnológica das telecomunicações via informática criou não só
um ambiente artificial – a cidade eletrônica- como também tem impactado na
cidade real. As principais cidades do país e do mundo já estão reestruturando
seu espaço, em face das grandes empresas transnacionais que demandam a inserção
dos lugares em um espaço de fluxos globais, como é o caso da Volkswagem, em
Resende (RJ). Do ponto de vista da força de trabalho, a cultura da rede já
altera a geografia dos trabalhadores. Tradicionalmente, a cidade real é
diferenciada internamente entre o local de trabalho e a residência. Hoje alguns
empresários já promovem a utilização da própria casa do trabalhador como um
pequeno escritório acessado à rede central da empresa e ao mundo. É
neste sentido, que podemos afirmar que a inserção de um grupo maior de
pessoas, empresas e outras organizações políticas no ciberespaço pode
provocar um esvaziamento da cidade real, tal como afirma Levy (1996), e um
povoamento de uma cidade eletrônica sem fronteiras políticas, em que o
ordenamento não se realiza pela disposição de formas espaciais materiais, e
sim por uma organização lógica do acesso à rede que possui uma ética própria
para quem ali deseja vivenciar. Enfim,
apesar de muita desconfiança por parte dos geógrafos em analisar o ciberespaço
e de seu caráter altamente de exclusão social para grande parte da população
mundial, tudo indica que a sociedade moderna do próximo milênio estará cada
vez mais conectada à rede mundial de computadores. Neste sentido, cabe à
Geografia problematizar a revolução tecnológica das telecomunicações
enquanto impacto e reflexo das mudanças qualitativas do capitalismo, levando-se
em conta a emergência de uma ciber-socialidade inserida na cidade eletrônica e
a multiplicidade de territórios culturais e empresariais ali localizados, ou
melhor, fora de lugar. 5-
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a Sociabilidade no vídeopapo. texto da web, http://www.facom.ufba.br SILVA,
Paulo Celso da. Geobservação: da
Cidade à Cidade Eletrônica. página da Web. http://www.open-school.com,
1999. VIRILIO,
Paul. O espaço crítico. Rio de
Janeiro:Editora 34, 1993. Textos
produzidos em workshop e localizados na Internet O
Visual Urbano e a Cidade Digital; workshop in Atrator Estranho; página da web;
http://www.eca.usp.br/nucleos/ntc/ntc.htm. Redes
Comunicacionais– web:http://www.eca.usp.br/nucleos/ntc/ntc.htm. [1]
Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Universidade Federal
Fluminense. [2]
Aluna do Curso de Pós-Graduação em Organização Espacial do Rio de
Janeiro do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense. [3]
Relph, Edward (1976) já havia proposto o conceito de placelessness
(deslugar) para as paisagens monótonas, clonadas e desprovidas de
identificação, tais como auto-estrada, os viadutos, conjuntos
habitacionais
etc. Relph, todavia,
ressalta
que para os usuários de tais localidades é possivel que elas assumam um
sentido de lugar. Visite os sites:
Geogr@afia on line - Página de Geografia que pertence a um projeto de extensão do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina Profº
Alvaro Henrique de Souza Ferreira
: Novas
tecnologias de informação e comunicação e o teletrabalho: um caso de
enclausuramento sócio-espacial?
1 - A (CIBER) GEOGRAFIA DAS CIDADES DIGITAIS - Dissertação de Mestrado apresentada no Curso de Mestrado de Geografia, na área de Ordenamento Territorial Regional do Instituto Geociências da Universidade Federal Fluminense com requisito parcial para obtenção de grau de Mestre. |
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Conheça
Também: 2 - A DIMENSÃO DO CIBERESPAÇO SOB O PRISMA DA CIDADE DIGITAL DE NITERÓI - monografia As novas tecnologias transformam a relação com o espaço, dando-nos uma nova percepção de mundo. É nesse contexto que as cidades digitais emergem, marcadas por uma velocidade e uma opção de vida, nunca antes experimentada. . Novas formas de sociabilidade convertem-se em velocidade, em espaços de passagem, num verdadeiro jogo de se criar territórios e ao mesmo tempo desfaze-los, via trajetórias on-line, extrapolando fronteiras. Uma verdadeira revolução digital e de uma concorrência à escala global onde empresas começam a explorar as novas oportunidades de mercado, desenvolvendo áreas de negócios até então inexistentes estimulando novos investimentos e desenvolvimentos acelerados de novos setores da economia. Niterói está inserida neste contexto |
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